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Rascunho: 'A pergunta que veio ao entardecer' (por Daniel Lélis)

Posted: quarta-feira, 3 de novembro de 2010 by Daniel Lélis in Marcadores: ,
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O céu guloso monta o seu maior espetáculo. Ao longe algumas poucas andorinhas bailam despreocupadas. Um escurinho já se anuncia, mas enquanto não apresenta a noite, o dia desenha aquele que vem a ser a maior de suas belezas: o pôr-do-sol. Uma infinidade de sensações percorrem o seu corpo. Sua memória te convida para sonhar. Mas os seus olhos são teimosos e querem apenas contemplar com gratidão o fenômeno que se materializa a sua frente. Não há barulho. E mesmo que houvesse, você seria indiferente. O que importa ali é a apreciação de um presente da natureza. Uma oferta da vida para os seus olhos nunca esquecer. Você está parado. O sol vai traçando a sua despedida rotineira. Cores vibrantes, talvez tristes, pintam o céu. Nenhuma nuvem ousa atrapalhar o momento. No fundo dos seus olhos então uma senhora pergunta aparece. Você percebe. Sabe que não há como fugir dali. De repente, o vento sussurra ao seu ouvido o questionamento que naquela ocasião de beleza pura o destino deseja fazer. O azul do céu de repente é substituído. Nele, você agora enxerga desesperado a questão já ensaiada pela brisa do entardecer. Seus olhos se abrem. Caberiam mil leões ali.
Qual a razão do nosso existir?, é o que pergunta a sua perdida, mas valorosa, consciência. Nenhuma resposta será dada, você sabe. Mas é preciso fingir. A consciência costumar pesar quando o que sustenta a alma é apenas a leveza das aparências. Mas alguém que não foi convidado resolveu reaparecer. É o seu passado. Por um breve espaço de tempo, você pensa em ignorá-lo. Inutilmente, claro. Ele veio até você para mostrá-lo que há perguntas que só ele pode responder. E é o que ele faz. A noite parece próxima. O sol já dá o seu adeus de todos os dias. A luz já é escassa. Mas há uma chama suspensa no ar. Sua intenção: não deixar que o breu da noite esconda a pergunta que não quer calar. A pergunta que grita aos seus ouvidos. O passado finalmente mostra a que veio. Uma pontinha de desespero te consome, mas só então você descobre que tudo ali faz sentido. Ora essa, o passado, embora sempre fique para trás, nos acompanha de perto. Mesmo que muito dele não seja colorido, são dos seus desdobramentos nascem o fruto valioso que chamamos de MATURIDADE. Ela, diga-se, não é, embora muitos assim entendam, apenas o reflexo do passar do tempo. Ela não é consequência meramente da chegada dos cabelos brancos. Ela brota de nossas experiências. E não é preciso ter 100 anos para ter vivenciado com completude e intensidade o que a vida tem para oferecer. Muito pelo contrário. Sabe-se que há pessoas que mesmo chegando aos três dígitos não teriam dez páginas de histórias para contar. Muitas outras, na contramão do senso comum, viveram bem menos e uma biblioteca inteira não seria capaz de traduzir com plenitude as suas muitas histórias de vida. Algumas pessoas vivem, outras apenas existem. Já dizia Cazuza, o moço que muito viveu embora pouco tenha existido.
O imbatível anoitecer já deu as caras. Não há luar. Tímidas estrelas vão surgindo. A chama permanece resoluta a sua frente, não permitindo que a noite esconda de ti a nobre interrogação. Você suspira e se indaga: por que existimos? O passado dá palminhas no seu ombro e lembra você que não é preciso ir longe para encontrar a resposta. Ela está dentro de você. Mais precisamente em seu coração. É o amor, você fala. O amor é a resposta. Existimos por amor. Existimos para amar. A pergunta, ora indiscreta, satisfeita afugenta-se. A resposta aflita enfim é saboreada. Sua alma feliz parece um entardecer risonho.

Daniel Lélis

Rascunho: 'Seu encontro com você' (por Daniel Lélis)

Posted: quinta-feira, 10 de junho de 2010 by Daniel Lélis in Marcadores: ,
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Lá fora o vento cinza convida folhas a dançarem. A noite nublada esconde estrelas sonolentas. O único barulho que se ouve é o canto do silêncio. Aqui dentro, um coração sombrio vaga perdido, sem entender as razões para o seu próprio desarranjo. O mistério do mundo é perturbador. Na mente, explicações tentam ser construídas, mas sem êxito. O fim então que estava próximo, está aqui. É o fim da inocência. E de repente, no horizonte, um moinho gigante se forma, e vai moendo, uma a uma, muitas de suas esperanças. Desesperado, você se aventura e saboreia as delícias que só a atitude arriscada pode lhe proporcionar. Você procura respostas para perguntas que nunca entenderá. Aos poucos a dor de conhecer o mundo te contamina e te leva para longe de si mesmo. Longe, você descobre que nunca esteve tão perto de si. Aos poucos um a um todos os seus heróis vão sendo derrotados pela verdade. O seu equilíbrio parece te incomodar, mas você disfarça. Sabe que precisa seguir adiante. É, às vezes as melhores surpresas são mesmo a que fazemos. Mas você não está só surpreso consigo mesmo. Pela primeira vez você consegue entender as engrenagens fascinantes que movem o mundo. E isso, muito antes de realizá-lo, parece empurrá-lo para o medo. Você caminha. Não sabe para onde vai. Mas sente que tem força para não cair. Suas lembranças voltam a te assombrar. É a primeira vez também que você se sente feliz ao caminhar de mãos dadas com os fantasmas de sua infância. Quando você é transportado para o hoje descobre que todos os ontens ficaram para trás. Uma pá gigantesca surge e você passa a enterrar uma a uma todas as histórias que ainda te incomodam. A beleza do momento, contudo, é vergonhosa. Não poderia ser diferente. Julgado e condenado, muito de seu passado vai se despedaçando. A noite é fria. Ao longe as estrelas parecem lamentar, mas na verdade nunca estiveram tão orgulhosas. Um ventinho úmido faz balançar seus cabelos. No meio fio da vida, você enfim consegue enxergar-se. O silêncio e o luar tímido nunca pareceram tão fantásticos. Nada será como antes. Essas foram as únicas palavras que você ouviu de sua mascarada consciência. Este é o destino. Você sabe que alguma coisa precisa terminar para que haja um novo começo. As verdades envenenadas da realidade te servem como o mais doce remédio. Só então você descobre que ninguém precisa ser bom o suficiente para ter sucesso. Sorte e dinheiro são ingredientes mais que suficientes. Descobre igualmente que não adianta quanto você se esforce, alguém sempre irá desconfiar de você; que estupidez e hipocrisia são fortes propagandas; que quanto mais se nega o que se é, mais certeza se tem de que o é. Descobre enfim que as utopias não têm prazo de validade. Agora você está de pé. Parece vigiar a si mesmo. Não, não há nada que te faça sentar novamente. Um sono absurdo parece te consolar. Mas a sua aventura ainda não terminou. Conhecer a si próprio exige muito mais. Muito mais. Você sabe disso. Resolve então caminhar, agora de verdade. Na rua, poucos transeuntes. É mais de meia noite. Eleva mais uma vez os seus olhos e percebe que muito tempo se passou desde o início da maior viagem da sua vida. Um encontro forçado seduz mesmo, hein?! O futuro nunca foi tão pouco importante como naquele momento. O mais interessante de se conhecer é que no fundo você sabe que sempre vai ser derrotado pelas suas próprias incertezas. Você para um instante. Parece querer voltar, e volta. Você agora está na sua cama. O sono volta a te chamar. Você o ignora. A redenção bate na sua porta. Você a convida para entrar. É agora. A inocência já em apuros então é atropelada. Grandes e incontestáveis valores são jogados para sempre no porão das irrelevâncias. Só então você consegue ver. Está lá. O esconderijo que você tanto procurava. Você encontrou a saída. O refúgio dos canalhas. Dos sobreviventes. E não adiante o quanto você insista por não fazê-lo, não há outra alternativa. Você precisa se render. É o que você faz. Seus olhos, ardentes e furiosos, calmamente se fecham. Você dormiu. Lá fora o mundo sente pena de você, mas parece contente por derrubar todas as máscaras. Quando acordares, tudo será diferente...


Daniel Lélis
*Rascunhão que serviu de base para a criação do conto "NO PALCO DA VIDA, O SEU ENCONTRO COM VOCÊ", que estará em breve na Revista Jfashion.